LER e DORT são as doenças ocupacionais mais prevalentes no Brasil — e, paradoxalmente, as mais preveníveis. Escritórios, fábricas, call centers, cozinhas industriais e supermercados são palcos silenciosos onde milhares de trabalhadores desenvolvem essas condições ano após ano. Neste artigo, explicamos o que são LER e DORT, como se desenvolvem, quais são os fatores de risco e — principalmente — como prevenir LER e DORT de forma eficaz no ambiente de trabalho.
O que são LER e DORT?
LER (Lesões por Esforços Repetitivos) e DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) são termos que designam um conjunto de condições que afetam músculos, tendões, nervos e articulações, causadas ou agravadas pelo trabalho.
As principais condições incluídas sob esse guarda-chuva são:
- Tendinite e tenossinovite: inflamação de tendões e bainhas tendíneas
- Síndrome do túnel do carpo: compressão do nervo mediano no punho
- Epicondilite (cotovelo de tenista/golfista): inflamação na inserção dos músculos no cotovelo
- Bursite: inflamação das bursas nos ombros, cotovelos ou joelhos
- Síndrome do manguito rotador: lesão nos tendões do ombro
- Cervicalgia e lombalgia ocupacionais: dores cervicais e lombares relacionadas ao trabalho
Fatores de Risco para LER/DORT
Fatores Físicos
- Movimentos repetitivos: tarefas que exigem o mesmo movimento centenas ou milhares de vezes por dia
- Força excessiva: aplicação de força além da capacidade dos tendões e articulações
- Posturas inadequadas: trabalho com punhos dobrados, ombros elevados, pescoço inclinado por períodos prolongados
- Vibração: uso de ferramentas vibratórias (serras, britadeiras, motosserra)
- Frio: trabalho em câmaras frias ou com manipulação de materiais frios reduz a destreza e aumenta o esforço muscular
Fatores Organizacionais
- Ritmo de trabalho acelerado sem pausas adequadas
- Trabalho em turnos longos sem variação de tarefas
- Pressão por produtividade que inibe o uso de pausas
- Falta de treinamento em técnicas corretas de trabalho
Como Prevenir LER e DORT: Medidas Práticas
1. Análise Ergonômica do Trabalho (AET)
A AET (Análise Ergonômica do Trabalho), exigida pela NR-17, é o ponto de partida. Ela identifica os fatores de risco ergonômico em cada posto de trabalho e define as medidas de controle necessárias.
2. Adequação dos Postos de Trabalho
- Ajustar a altura da bancada ou mesa ao trabalhador (não o trabalhador à bancada)
- Cadeiras reguláveis com suporte lombar adequado
- Monitor de computador na altura dos olhos, a 50-70 cm de distância
- Teclado e mouse posicionados de forma que o cotovelo fique a 90° e o punho em posição neutra
- Ferramentas e materiais frequentemente usados dentro do alcance funcional do braço
3. Pausas e Rodízio de Funções
A NR-17 exige pausas para trabalhos em digitação: no mínimo 10 minutos a cada 50 minutos de trabalho. Para outras tarefas repetitivas, a AET deve definir as pausas adequadas. O rodízio de funções — alternar entre tarefas que exigem grupos musculares diferentes — é uma medida preventiva eficaz.
4. Exercícios de Ginástica Laboral
Programas de ginástica laboral, com 10 a 15 minutos de exercícios de alongamento e mobilidade no início do turno ou nas pausas, reduzem a tensão muscular acumulada e melhoram a circulação. Devem ser orientados por fisioterapeuta ou profissional de educação física.
5. Capacitação dos Trabalhadores
Trabalhadores precisam ser treinados para:
- Reconhecer os primeiros sinais de LER/DORT (dormência, formigamento, dor após o trabalho)
- Reportar precocemente ao médico do trabalho — quanto mais cedo o tratamento, melhor o prognóstico
- Utilizar as técnicas corretas de trabalho: postura, força aplicada, forma de segurar ferramentas
6. Monitoramento pelo PCMSO
O PCMSO deve incluir exames periódicos com avaliação de sinais e sintomas de LER/DORT para os trabalhadores expostos a riscos ergonômicos. O diagnóstico precoce evita a progressão para casos graves e reduz o afastamento.
Conclusão
LER e DORT são evitáveis. Empresas que investem em ergonomia — através da AET, da adequação dos postos de trabalho, de pausas regulares e de capacitação — registram queda significativa nos casos dessas doenças e nos afastamentos relacionados. O custo da prevenção é sempre menor do que o custo do tratamento, da reabilitação e dos passivos trabalhistas gerados por doenças ocupacionais.
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